Versos Transversos
São versos transversos emersos de versos
de versos transversos de almas bem simples
de versos conversas transversas translínguas
de versos reversos aprendizados
de versos bem sangue bem perto do longe
bem longe do perto pulsando bem dentro
do ontem bem dentro do longe bem hoje
do coração selvagem de Clarice Lispector
bem dentro do hoje bem dentro do perto
bem perto deste seu enfermo e rebelde coração
São versos-devir sob céu de estrelas
bem dentro bem longe brilhando bem alma
bem versos dispersos transversos tão perto
Tão perto que seus cabelos sob véu quase solto
exalam o cheiro da carne queimada
sob céu de meio dia meio da rua tão longe
logo ali na esquina sob o céu da Tunísia
Tão longe que sua trança sob o céu quase solta
se confunde com cocar Yanomami sob o céu
sob o céu a despencar sobre cabeças aqui
bem perto de Cabul na Amazônia
Tão perto que entre letras e sílabas e frases
boiando sobre o papel listrado em seu caderno
florescem palabras que no morirán
bem perto bem longe zapatista corazón
Tão perto tão longe que na boca o amargo
de meu latente des-saber
Tão longe que ardem bem dentro palavras
palavras em brasa que você enuncia
fonema a fonema com voz mutilada
ardente da brasa que arde o corpo
no hoje do ontem em fogueira distante
bem perto bem longe ardendo em história
no eco de vozes ardentes por versos
por versos transversos ardentes de amor
Tão perto tão longe que transborda a visão
sua mão que são tantas neste sertão
que rabiscam rasuram rompem o impossível chão
E ouço bem perto o bater apressado
coração selvagem buscando traslado
entre traços que indistinguíveis se querem
entre letras e sílabas e palavras e frases
que confundem fecundam e transversam o hoje
com o que já é ontem e já pulsa amanhãs
e se a vida é monetizável
e os amanhãs cancelados proibidos compelidos
seu enfermo coração é transviável
e embaralha letras e fonemas que como cartas
transverberam êxtases e resultam em sorriso
de coração rebelde translexo transgresso
ao verso compelido proibido cancelado
e pelas linhas de fuga de seu caderno listrado
letras voando sobre ruas e matas
traduzem-se em “até amanhãs” confiantes
em desejo em verso em risco em vida
Tão perto tão longe tão hoje tão ontem
e nunca amanhecemos as mesmas
Rubia Salgado